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Estação Espacial Internacional comemora 15 anos de atividade

Para muita gente, a chegada de novembro significa que o Natal e as férias de fim de ano estão cada vez mais próximos – com aquele merecido descanso despontando no horizonte. Porém, para quem acompanha o mundo da ciência e da tecnologia, a entrada desse mês tem uma importância muito, mas muito maior, já que marca os 15 anos de existência de um dos projetos mais ousados da humanidade fora da Terra: a Estação Espacial Internacional (EEI). Acha pouco? Bem, por causa dela, estamos vivendo ininterruptamente no espaço desde 2000.

Claro que a construção desse equipamento começou em uma data anterior – mais extamente dois anos antes –, preparando todo o terreno para receber sua primeira leva de astronautas e cosmonautas. Consegue imaginar o trabalho envolvido em erguer uma estrutura que, atualmente, tem pouco menos de 110 metros de extensão, 419 toneladas, oito painéis solares com mais de 262 mil células e 388 metros cúbicos de área habitável? Se isso já é complicado de ser realizado em terra firme, fazer a mesma coisa no espaço é um feito inacreditável.



Assim, em novembro de 1998, o Módulo de Controle Zarya foi o primeiro componente da EEI a chegar à nossa órbita, com a unidade de acoplamento pressurizado, o Módulo de Serviço Zvezda e mais alguns compartimentos sendo integrados ao conjunto nos anos seguintes. Com tudo montado ao longo de diversas incursões espaciais tripuladas e lançamentos de foguetes autônomos, essa encarnação inicial da estação – bem mais humilde do que a atual – deu as boas-vindas aos seus primeiros habitantes no dia 2 de novembro de 2000.

Em um esforço conjunto da NASA e da Roscosmos – agência espacial russa –, uma unidade da Soyuz levou William Shepherd, Sergei Krikalev e Yuri Gidzenko para a primeira expedição científica da Estação Espacial Internacional. O norte-americano e seus companheiros russos tinham como objetivo realizar experimentos e desbravar a permanência de humanos do espaço em uma missão de 136 dias. A Expedição 2 chegou por lá antes do fim da permanência do trio, dando início a uma tradição que garante que a EEI nunca esteja desocupada.

Sergei Krikalev, William Shepherd e Yuri Gidzenko 
foram homenageados em seu retorno à Terra.


Internacional mesmo!

Para alcançar suas atuais medidas – chegando a ser quatro vezes maior do que a Mir e cinco vezes mais ampla que o Skylab –, a estação foi sendo ampliada de forma lenta, mas constante. A estrutura modular e as portas de acoplamento garantiram que a expansão e a integração de novos equipamentos se tornasse algo bem difundido, atraindo mais do que contribuições dos Estados Unidos e da Rússia. Hoje, o projeto conta com componentes fabricados por diversas nações, incluindo Canadá, Japão e diversos países da União Europeia.

Se isso não for o bastante para convencer você do termo “Internacional” no nome da EEI, saiba que a participação mundial é muito maior quando se fala na nacionalidade das mais de 200 pessoas que ficaram um tempo o lugar – entre astronautas e visitantes particulares. Dos cinco continentes, a Oceania é o único que nunca teve um representante por lá. Em 2006, o Brasil marcou presença na Estação Espacial Internacional, enviando Marcos Pontes, tenente-coronel da FAB, na chamada Missão Centenário – em uma parceria brasileira com a Roscosmos.



Essa pluralidade de nações já causou algumas situações inusitadas e cravou também uma série de recordes em relação à permanência dos seres humanos no espaço. Em julho de 2009, por exemplo, a estação abrigava 13 pessoas de cinco diferentes nacionalidades. Já em abril de 2010, a presença simultânea das astronautas norte-americanas Dorothy Metcalf-Lindenburger, Stephanie Wilson e Tracy Caldwell Dyson e da japonesa Naoko Yamazaki marcou a maior concentração feminina no espaço de todos os tempos – um número ainda a ser batido.

Festival de dados

Quando se fala em números, aliás, praticamente tudo a respeito da Estação Espacial Internacional é impressionante. Além do porte de respeito, mencionado anteriormente, a própria jornada da estação no espaço é de tirar o fôlego. Voando – ou caindo, se você quiser ser fisicamente mais preciso – a uma altitude de 400 quilômetros da Terra, a construção tem uma velocidade média de 28 mil quilômetros por hora – o suficiente para fazer inveja a caças, carros de Fórmula 1 e outros veículos de alta velocidade no planeta.

Como é? Achou pouco? Saiba que isso permite que a EEI dê uma volta em torno da Terra a cada uma hora e meia, garantindo um espetáculo indescritível para quem adora ver o Sol se pondo ou levantando, já que isso pode ser observado cerca de 15 vezes ao dia quando se está a bordo do brinquedinho espacial. Adicionalmente, segundo o site io9, o conjunto de módulos é o objeto mais claro no céu depois da nossa Lua, podendo ser observado a olho nu – dentro de determinadas condições e seguindo o cronograma do site Spot the Station, claro.



A manutenção da vida dos 220 astronautas que já deixaram a Terra para viver no espaço por períodos de cerca de seis meses também chama atenção. Devido às condições bastante hostis fora da nossa atmosfera, manter esse pessoal em boas condições por lá é uma tarefa hercúlea, que requer – além de muita tecnologia – cerca de 6,3 toneladas de mantimentos a cada nova turma enviada para o local. O “kit” é transportado por veículos das agências espaciais ou voos comerciais e inclui comida, água, ar e outros itens de primeira necessidade.

Manter essa galera bem alimentada, aliás, é essencial para que todo o trabalho no espaço seja feito sem nenhum tipo de problema – ainda mais porque não é lá muito fácil pedir uma pizza para satisfazer a fome a qualquer momento quando se está em órbita. Ao todo, mais de 26,5 mil refeições foram saboreadas dentro da Estação Espacial Internacional, se dividindo entre pratos típicos de alguns países e opções bastante populares a 400 mil metros de altitude, como porções de camarão, tortillas e o tradicionalmente norte-americano “macaroni and cheese”.



Tecnologia voltada à ciência

Outros dados de destaque dizem respeito à principal função do projeto: pesquisas científicas. Ao longo dos 15 anos de história da iniciativa, milhares de experimentos foram feitos dentro e fora da estação, começando com modestos 22 testes durante a Expedição 1 e chegando à expectativa de quase 200 deles nas futuras Expedições 45 e 46. Mesmo que nem todos tenham enviado astronautas para o local, um total de 83 países foram responsáveis por encomendar as 1760 experiências realizadas no laboratório espacial.

Todo material é armazenado em 29 lâminas que são instaladas e removidas conforme a necessidade dos pesquisadores, com 15 delas ficando expostas ao ambiente árido do espaço – exatamente para testar sua influência sobre todo tipo de elemento. Esse sistema garantiu a produção de mais de 1,2 mil artigos científicos e permitiu a participação de projetos idealizado por estudantes de todo o mundo, possibilitando que assuntos discutidos em sala de aula pudessem ser testados na prática em uma estação de última geração.



O mais interessante é que todas as pesquisas desenvolvidas lá em cima podem render frutos e ter impacto direto no nosso cotidiano – sem que precisemos dar uma voltinha no espaço. Basta lembrar que os estudos a respeito do crescimento de cristais de proteína, o primeiro experimento feito na Estação Espacial Internacional – iniciado antes mesmo de a primeira tripulação chegar ao local –, está dando base para uma série de avanços médicos e auxiliando na fabricação de remédios para o tratamento da distrofia muscular.



Os próprios experimentos feitos usando os astronautas como cobaias, avaliando seu comportamento na estação e os efeitos da gravidade zero sobre o corpo humano, acabam dando origem a teorias sobre exercícios e dietas e até rendendo uma nova visão sobre a osteoporose. Falando em visão, um dos exemplos da importância desses projetos é o chamado Eye Tracking Device, equipamento que monitorava o olhar das pessoas na EEI e possuía uma tecnologia tão precisa que agora ela é utilizada em cirurgias oculares.

Do espaço para a Terra

As ferramentas a bordo da Estação Espacial Internacional também permitem monitorar diversas atividades ou testar uma série de recursos antes de aplicá-los na Terra. O sistema de purificação de água desenvolvido para a EEI, por exemplo, chega a reaproveitar cerca de 65% do líquido usado no local, oferecendo um processo eficiente que pode vir a ser replicado no nosso cotidiano. Um par de braços robóticos instalados na construção, o Canadarm2 e o Dextre, inspiraram, posteriormente, versões menores voltadas para a medicina.

Outros aparatos da estação mantêm seus olhos – ou lentes e conjuntos óticos – sempre abertos e voltados para o seu planeta de origem, garantindo relatórios detalhados sobre todo tipo de tema. Assim, esses instrumentos podem monitorar detalhadamente a qualidade das nossas águas – verificando coisas como pureza, absorção de luz e outros fatores – ou produzir fotos em alta qualidade de regiões afetadas por desastres naturais para que os governos possam lidar com a situação rapidamente e do jeito mais eficiente.



Ok, mas será que todos esses recursos e tecnologias exigem o bom e velho “PC da NASA” para se manterem em funcionamento? Bem, a resposta é “não” se você pensar em uma máquina de última geração capaz de rodar jogos de última geração. Apostando em hardware mais antigo, mas extremamente estável, a Estação Espacial Internacional abriga 52 computadores para processar todos os dados, com esse conjunto executando 1,8 milhão de linha de código – com mais 3,3 milhões delas sendo rodadas em equipamentos na Terra.



Tanto essas peças internas quanto boa parte dos módulos externos precisam ser instalados e reparados pelos próprios astronautas, que, não raro, têm que fazer as famosas caminhadas espaciais para substituir sensores ou integrar novos recursos à EEI. No total, os visitantes do laboratório espacial investiram ao menos 1.184 horas na construção e manutenção do local, desde dezembro de 1998. Nesse período, 121 pessoas realizaram 189 atividades no ambiente externo da estação.

Visões do futuro

Para quem curte os mais diversos ramos da ciência e vê com bons olhos toda tentativa de exploração fora da Terra, a criação e o desenvolvimento da Estação Espacial Internacional e a permanência de humanos no local ao longo de 15 anos é uma façanha por si só e acaba dando boas perspectivas sobre o nosso futuro. O fato de que uma colaboração em escala mundial, mesmo que não seja completa, é capaz de produzir uma construção dessas abre espaço para que projetos como o da suposta base lunar russa se tornem possíveis.




Apesar disso, o futuro da própria EEI continua incerto, já que o orçamento reservado para o laboratório só garante que ele seja bancado até 2024 – um ano antes de chegar ao seu 25º aniversário. Embora haja rumores sobre uma nova colaboração entre a NASA e a Roscosmos para dar continuidade a esse tipo de estação, nenhuma das agências confirma que haverá um novo fruto da parceria. Seja qual for o futuro da instalação espacial, fica difícil não parabenizar tudo o que foi conquistado durante essa última década e meia a partir dela, não é?

Fonte: Space.io9

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